2.12.16

para mães e pais



a ignorância nem sempre é uma bênção

Existe um fenómeno que é bastante frequente e que está associado a notícias que mexem mais com as pessoas. Como é o caso da tragédia que roubou a vida a praticamente uma equipa de futebol. O choque inicial veio com a queda do avião. E depois com a confirmação da morte de 71 pessoas. De resto a informação foi surgindo a conta gotas.

E quando assim é... os alvos das pessoas vão mudando. E confesso que este fenómeno é algo que me surpreende. Isto no sentido dos ataques que algumas pessoas fazem. E muitas delas centram o seu ódio (e ignorância) na controladora do aeroporto colombiano que pode ser ouvida a conversar com o piloto do avião que acabou por se despenhar.

Sabe-se agora que o avião caiu porque simplesmente ficou sem combustível. O que originou uma falha técnica total na aeronave. Sabe-se também que existe um motivo para isto. O avião deveria ter parado para efectuar um reabastecimento de combustível. Algo que o piloto (um dos sócios da empresa) não quis fazer. Sabe-se também que o aeroporto deu prioridade a um avião que estava a perder combustível e que alertou o aeroporto desse facto.

Muitas pessoas decidiram culpar a controladora aérea – Yaneth Molina – do acidente. E isto é errado. Porque a culpa é de outra pessoa. A controladora não está a par dos “truques” da transportadora para poupar dinheiro. Nem sabe que uma tragédia está prestes a acontecer por causa desses mesmos erros. Aquilo que sabe é que o piloto falhou. E arriscou, sabendo o risco que corria. Esta atitude colocou em perigo a vida de todos e acabou numa tragédia.

sentir pena e compaixão por quem não merece

Lá em casa o primeiro dia de Dezembro é sinónimo de montar a árvore de Natal. E assim foi! Além disso, o tempo convidou a que me entregasse ao sofá. E à Netflix, mais especificamente à série Narcos. Ontem foi dia de colocar os episódios em dia, ou seja, acabar de ver a segunda temporada. Que teve o final que esperava.

Narcos é somente uma das melhores séries dos últimos tempos. O que não é fácil para um projecto que mistura realidade com ficção e que tem ares de documentário. O que é certo é que dei por mim preso à série. E à vida de Pablo Escobar. Se disser que a segunda temporada acaba no dia da morte do traficante de droga não estarei a dar novidade a ninguém porque todos sabem como acaba a história de Pablo Escobar.

O que foi uma novidade para mim é que tive pena do final de vida deste homem. Mesmo dando o desconto de que a série tem pessoas que não existiram, outras que são inspiradas em pessoas reais e momentos que são pura ficção e outros ligeiramente adulterados. Dei por mim a não desejar a morte do traficante para que a série tivesse mais de si. Mas tendo em conta que conheço a foto da sua morte, bastou ver a roupa dos personagens para saber que era o dia em tudo teria um fim.

Senti pena de Pablo Escobar. Senti empatia pelo traficante. Mas não deveria. E na “realidade” não sinto. Porque este homem matou muitas pessoas. Roubou a vida a muitos inocentes. É certo que também fez coisas muito boas e ajudou muitas pessoas. Mas isto acaba por não se destacar quando comparado com as vidas que destruiu sem hesitar. Sem se preocupar com essas baixas.

Mas Narcos consegue dar um lado humano e uma figura como Pablo Escobar. E o mérito é da equipa que produziu esta série. Sendo que o grande destaque vai para Wagner Moura, actor brasileiro que dá vida ao temível traficante. A série e o actor fazem com que muitas pessoas olhem para Pablo Escobar com outros olhos. Por momentos, especialmente na primeira temporada, quase que se cria a ideia de que ser narcotraficante é algo cool.

Por isto tudo, e muito mais, Narcos é uma série que recomendo a todas as pessoas. É daquelas, como gosto, que viciam. Que nos fazem querer ver mais um episódio. E mais um. E mais outro. E este é o melhor elogio que se pode fazer a uma série, seja ela qual for. E quase que aposto que não serei o único a ter momentos de pena e empatia por uma pessoa que na realidade não merece nada disso.

30.11.16

aprender a falar japonês em quatro minutos



Não precisam de agradecer!

aprende quem quer

Tive a honra, o prazer e o privilégio de estar à conversa com Eunice Muñoz. Digo isto porque a história da representação em Portugal confunde-se com a história da actriz que celebrou no dia 28 de Novembro os 75(!!!) anos da sua estreia no Teatro Nacional D. Maria II. É do conhecimento público que a actriz, de 88 anos, teve alguns problemas graves de saúde nos últimos tempos. Mesmo assim foi uma simpatia para os jornalistas que quiseram conversar consigo antes da homenagem que lhe foi feita.

O tempo estava contado ao segundo, o que levou a que a conversa fosse interrompida porque Eunice era esperada noutro local. "Deixe-me conversar com eles mais um pouco. São muito simpáticos", disse Eunice, recusando o final da entrevista. A conversa prosseguiu. O tempo apertava (menos para os jornalistas pois ouvir Eunice é simplesmente fantástico). E nova interrupção. "Peço desculpa mas temos de acabar", disse a pessoa responsável pela presença dos jornalistas. "Só mais uma pergunta", referiu Eunice Muñoz.

Resumindo, a conversa teve quase o dobro do tempo que tinha sido estipulado previamente. E o mérito é de Eunice Muñoz, uma mulher com 88 anos de vida e mais de sete décadas de carreira. Enquanto jornalista fico feliz por viver momentos destes. E digo isto porque vivemos num país de pseudo-famosos e de celebridades que pensam que o são quando nunca o vão ser.

Pessoas que pensam que são conhecidas no outro lado do mundo mas de quem nunca ninguém ouviu falar em Badajoz. Estrelas que nunca vão brilhar e que não fazem mais do que falar mal dos jornalistas a quem pedem ajuda quando necessitam de algo. Como referi, deliciei-me com os momentos em que tive o prazer e honra de estar à conversa com um "monstro" sagrado como Eunice Muñoz. Mas quem precisava mesmo de a ouvir (bastava observar) são as tais celebridades que nunca o vão ser. Talvez aprendessem algo de interessante. Como por exemplo para que serve realmente a representação.

29.11.16

porque o futebol também dá lições

Existem pessoas para quem o futebol serve, acima de tudo, para semear ódio. Aliás, existem tantas pessoas que só vivem do ódio e da desgraça. Mas esse tema fica para outro momento. Hoje fala-se de futebol. E das pessoas que o associam ao ódio. São aquelas pessoas que desejam que determinado jogador parta uma perna. Que tenha uma lesão que o incapacite para a vida. Ou, em casos extremos (mas frequentes) que um avião se despenhe e acabe com uma equipa.

O futebol deve alimentar rivalidades. Não mais do que isso. O que vai além disso é apenas estupidez. Voltando aos desejos odiosos. Há quem queria que um avião caia. E ontem caiu um. Que transportava uma modesta equipa brasileira – Chapecoense – que vivia um momento histórico. Além de uma comitiva de convidados e imprensa. Até ao momento existem poucos sobreviventes e não se sabe se vão todos resistir aos ferimentos.

Com a queda do avião o mundo percebeu que o futebol não é um mundo de ódios. Perceberam que os jogadores, com todos os defeitos que possam ter, são filhos, irmãos e netos de alguém. São namorados e maridos de alguém. São pais de crianças. São, afinal de contas, iguais a todas as outras pessoas. Aquelas a quem não se deseja a morte numa queda de avião.

Hoje o futebol está a ensinar ao mundo, em especial a quem vive do ódio, que aquele que é considerado o desporto rei vai muito além do ódio alimentado por “meia dúzia” de pessoas que são guiadas pelos sentimentos errados. E tudo o que possa ser dito sobre esta tragédia nunca será tão forte como esta imagem onde estão os jogadores do clube brasileiro, que não seguiram viagem por diversos motivos, no balneário da equipa, enquanto vão recebendo notícias da Colômbia.